Dois apontamentos sobre uma grande<br> grande greve geral

Margarida Botelho (Membro da Comissão Política)

A greve geral de 14 de No­vembro foi um passo adi­ante na evo­lução da si­tu­ação po­lí­tica e so­cial por­tu­guesa. Foi uma greve his­tó­rica, pela di­mensão que atingiu – e de que as duas úl­timas edi­ções do Avante! deram conta –, pelas con­di­ções em que se re­a­lizou e pelos ob­jec­tivos co­lo­cados.

Um su­cesso in­des­men­tível, apesar dos es­forços para a me­no­rizar. Uma grande greve geral, que teve con­ti­nui­dade na ma­ni­fes­tação de dia 27 na As­sem­bleia da Re­pú­blica e que se de­sen­vol­verá também nas ma­ni­fes­ta­ções con­vo­cadas pela CGTP-IN para 8 e 15 de De­zembro no Porto e em Lisboa, res­pec­ti­va­mente.

Os tra­ba­lha­dores e o povo le­varão a luta onde a si­tu­ação exigir

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1 – A greve deixa abertas muitas pos­si­bi­li­dades para a luta fu­tura. No plano na­ci­onal, di­fi­cil­mente sa­be­remos quantos e quem foram os tra­ba­lha­dores que fi­zeram greve pela pri­meira vez, que pela pri­meira vez as­su­miram a par­ti­ci­pação ou a di­recção de um pi­quete, que foram cons­tru­tores da adesão de muitos co­legas e amigos, que se sin­di­ca­li­zaram no pro­cesso pre­pa­ra­tório, que as­su­miram fazer greve em em­presas ou sec­tores onde a adesão foi mais fraca, que deram o passo de par­ti­cipar na sua terra numa das de­zenas de ma­ni­fes­ta­ções e ac­ções de rua que a CGTP-IN pro­moveu em todo o País. Mas é pos­sível saber, em cada em­presa, em cada local de tra­balho, em cada fre­guesia, quem são essas pes­soas.

É ur­gente falar com cada uma delas para re­forçar a es­tru­tura sin­dical de base, para acres­centar força à luta das po­pu­la­ções, para que se tornem mo­bi­li­za­doras das pró­ximas ac­ções. É in­dis­pen­sável que se juntem ao PCP, ins­cre­vendo-se e in­te­grando-se na vida do Par­tido.

A sua par­ti­ci­pação nesta greve é um com­pro­misso duplo: dos gre­vistas para com a luta, mas também do mo­vi­mento sin­dical uni­tário e do Par­tido para com cada um deles.

2 – Os subs­cri­tores e apoi­antes do pacto de agressão uti­li­zaram todos os ins­tru­mentos ao seu al­cance para con­di­ci­onar, des­va­lo­rizar e es­conder a greve geral, desde o seu anúncio até ao dia 14. Já se es­pe­rava. Na co­mu­ni­cação so­cial, a corte de co­men­ta­dores, os di­rectos te­le­vi­sivos, os de­bates e as pri­meiras pá­ginas cen­traram-se quase ex­clu­si­va­mente nas ac­ções pro­vo­ca­tó­rias or­ga­ni­zadas frente à As­sem­bleia da Re­pú­blica após a ma­ni­fes­tação da CGTP-IN ao final da tarde do dia da greve. Não se pou­param a es­forços, porque o ob­jec­tivo de es­conder e des­va­lo­rizar a força da luta or­ga­ni­zada e con­se­quente é pri­mor­dial para que se man­te­nham no poder. E porque a opor­tu­ni­dade foi de ouro.

Pe­rigos e po­ten­ci­a­li­dades

O pri­meiro ob­jec­tivo destas pro­vo­ca­ções foi al­can­çado: ofuscar a greve geral, quer em Por­tugal quer no es­tran­geiro. Foram ac­ções pro­vo­ca­tó­rias cons­truídas de forma a que muita gente séria, ho­nesta e lu­ta­dora aceite a in­ter­venção po­li­cial não só como ne­ces­sária mas de­se­jável. Cons­truídas igual­mente de forma a en­con­trar eco em sen­ti­mentos de de­ses­pero e de re­volta ge­nuína que se en­con­tram em muitos sec­tores.

A partir destas pro­vo­ca­ções, tenta-se abrir es­paço à pos­si­bi­li­dade de novas in­ter­ven­ções po­li­ciais em ac­ções dos tra­ba­lha­dores. Lem­bremo-nos da pressão po­lí­tica e ide­o­ló­gica em torno das ideias de que os pro­blemas do País não se re­solvem com ma­ni­fes­ta­ções, de que os nossos cre­dores con­fiam em nós porque vi­vemos em clima de paz so­cial e não se vêem ima­gens «como na Grécia», de que não se pode deixar ins­talar o «caos so­cial». Lem­bremo-nos de Passos Co­elho a dizer que res­pon­sa­bi­liza o PCP por al­guma coisa que venha a acon­tecer aos mi­nis­tros do seu Go­verno.

O re­sul­tado mais per­verso destas ac­ções é o medo que al­guns possam vir a ter de par­ti­cipar na luta. Se até há al­guns dias as ima­gens vi­o­lentas de ma­ni­fes­ta­ções em Es­panha ou na Grécia, com cargas po­li­ciais e «cok­tails mo­lotov», eram usadas para es­conder a luta de massas nesses países, e para as­sustar e des­mo­bi­lizar da luta em Por­tugal, agora têm fi­nal­mente esse ins­tru­mento com pro­ta­go­nistas por­tu­gueses.

Foram ope­ra­ções mon­tadas para con­di­ci­onar os de­sen­vol­vi­mentos fu­turos da luta. Esse é o ob­jec­tivo que não po­derão al­cançar. A classe ope­rária, os tra­ba­lha­dores e o povo le­varão a luta onde a si­tu­ação exigir.

Como o nosso Par­tido tem afir­mado, vi­vemos uma si­tu­ação em que grandes pe­rigos con­vivem com grandes pos­si­bi­li­dades. Sobre os pe­rigos, pa­rece haver nas massas uma cres­cente cons­ci­ência. O papel dos co­mu­nistas é dar-lhes a con­fi­ança de que as pos­si­bi­li­dades de re­sistir e de avançar existem mesmo e de­pendem da sua uni­dade e da sua força. Como cum­pri­remos esse papel é uma das prin­ci­pais ques­tões que vamos dis­cutir no XIX Con­gresso, que co­meça já amanhã.

 



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